Periferia é retratada em livro escrito por professor de São Vicente

Michel Leite, que leciona em escolas públicas, conta a história de um jovem migrante na Área Continental

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“Somos muitos Severinos iguais a tudo na vida”. A frase é do poema ‘Morte e Vida severina’, de João Cabral de Melo Neto, que retrata o drama de um sertanejo em busca de uma vida melhor. Publicado em 1955, o texto continua atual e diz muito sobre a história de milhares de brasileiros, inclusive do personagem central do livro ‘Eu Sou Periferia’, escrito pelo professor Michel Leite Viana. Lançado no ano passado, a publicação narra a trajetória de um jovem, filho de migrantes nordestinos que se estabeleceram em um núcleo de invasão na Área Continental de São Vicente.

“O Periferia (personagem central do livro) poderia ser eu, mas não é. Ele é o resultado das histórias que a gente ouve e vê por aí. O perfil da periferia da Baixada Santista é de migrantes, ­especialmente do nordeste por causa do polo industrial e do Porto”, explicou Michel. A história contada no livro é fictícia, mas baseada em fatos reais.

Michel Leite, 36 anos, é professor de Educação Física e dá aulas para alunos do ensino fundamental das redes públicas de Santos e São Vicente. Filho de migrantes nordestinos, nasceu em Pindamonhagaba, no interior de São Paulo, passou parte da infância em Parnamirim, em Pernambuco, e chegou a São Vicente aos sete anos. Seus pais fixaram residência no Parque das Bandeiras, na Área Continental, região com inúmeros problemas de infraestrutura. Cresceu em meio à pobreza comum nas periferias do país, de onde surge a inspiração para os poemas que ­escreve.

“A Área Continental é dividida entre os lotes legalizados e as invasões. A Fazendinha é a última delas. Mas tem a área da linha férrea na Nova São Vicente e o próprio Quarentenário. A maioria das pessoas que mora aqui se não é nordestino é descendente. Tem também os mineiros. Decidi falar da periferia, dessa realidade, e comecei a escrever poesias. Nunca pensei escrever um livro. Mas foram tantas e virou livro”, destacou o ­professor.

Livro

‘Eu sou periferia’ narra a história do jovem Periferia, que saiu do nordeste com a mãe para encontrar o pai que já morava em São Paulo. Como todo migrante vieram para o Sudeste em busca de uma vida melhor. Moraram em um cortiço na região central da capital paulista e depois migraram para Área Continental de São Vicente onde conquistaram um ‘pedacinho de chão’ em uma área de invasão. A partir daí a trama mostra o cotidiano as adversidades e tentações que um jovem da favela vivencia. A obra tem 101 páginas e foi escrita com uma linguagem fácil.

“O objetivo era esse, ter um livro com linguagem fácil, e curto, para incentivar a leitura. Meu público é esse. Quem compra o meu livro é quem vive essa realidade. Muitas vezes não terminou o ensino fundamental. Tenho certeza que teve gente que já leu o meu livro e nunca tinha lido nada antes. Vendo mais no bar, nos campos de futebol e nos lugares onde sou ­convidado para falar sobre o tema. Tem os que gostaram e os que não gostaram também porque no livro tem ­palavrão, tem violência, tem gíria, mas não podia ser diferente. Ele é o retrato da periferia”, ­afirmou.

Michel tem percorrido o Brasil com o “Eu Sou Periferia”. Já participou de debates nas ­universidades federais do Rio de Janeiro e de Minas Gerais e em escolas. “Fui dar uma palestra em um presídio que não tem muros. Até pensei que fosse um pesque e pague. A participação deles foi muito ­grande. Perguntaram muitas coisas. Muitos se identificaram com a história do livro”, destacou. Ele contou que já recebeu mensagens no Facebook de pessoas na Sérvia e Madagascar.

O professor disse que não recomenda a leitura do livro para os seus alunos, que tem em média de sete a nove anos, mas disse que utiliza em suas aulas a literatura. “Quando fui fazer Educação Física achei que era só para mexer os membros. Mas me deparei com outra realidade. O professor media o caminho que eles mesmos (os alunos) têm que descobrir. A educação é um meio de ­modificar a vida de meninos como Periferia. Já peguei aluno que não sabia ler e depois de apresentar os livros nas aulas, no final do ano, ele ­terminou escrevendo poesias”, ressaltou ­orgulhoso.

‘Eu sou Periferia’ vira camiseta

O nome do livro de Michel também deu vida a uma marca de camisetas. As peças são confeccionadas em uma casa na Gleba II, na Área Continental de São Vicente, por meio de um cooperativa. A produção ­caseira já tem ­ganhado o gosto do público.

“São duas meninas do Gleba II que já trabalham com artesanato. A marca Eu Sou Periferia é só de camisas masculinas e femininas. No primeiro momento a ideia era difundir os poemas, mas como não ­queremos algo caro e sim com preço popular não deu para viabilizar. Em pouco tempo nas ruas o pessoal já se identificou”, afirmou Michel.

O livro de Michel e as camisas confeccionadas pela cooperativa podem ser adquiridos por meio da página Eu Sou Periferia, no Facebook.

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